A novidade estraga o hábito
Estraguei as xícaras novas, quebrei os pratos novos e risquei o mármore novo da cozinha. Eu sou uma pessoa invulgar que não consegue e que não pode ter nada de novo. O novo me deixa angustiado, arrepiado e desfocado. Não quero saber do novo nem para mudar de posição. A melhor posição é a mais cómoda em que estive há anos. Não, eu não sei mudar.
O novo me estraga. O novo me fere. O novo me descobre. O novo me confere. O novo me maltrata. O novo me consome. O novo me dissolve. Por que será, novo? Porquê? O novo é o perfume barato que não cai bem na minha pele. O novo é um tecido velho que não pode virar camisa. O novo, esse alienado, vem de rompante.
Enquanto eu não deixar de ser eu nunca poderei ser “novo” a cada dia. O meu novo é igual o de ontem, o meu novo é sempre eu mesmo. Juntando os cacos dos pratos, reparo que não vale de nada ser novo e quebrar-se. O que vale a pena é quebrar-se e continuar inteiro, intacto e como antes. Quebra-se a casca e mantêm-se a essência.
Não simpatizo com a novidade porque não sei perder a minha essência. Penso que ao mudar-me, de diversas formas, deixarei de ser quem fui. Mas o passado não é o impulso para o novo? Mas o novo não possui antecedentes? Novo para mim é a transformação do que eu já tinha há tempos. Novo é o meu estado que não toco e que não consigo atingir.
A novidade sempre me encarou de frente, mas eu não posso render-me à ela. A novidade não me espanta porque eu satisfaço sempre com o mesmo — e com o que tenho.
Se me perguntassem se um dia eu resolvesse mudar não sei o que responderia. Apenas sei que a novidade estraga o hábito e corrói o tempo vivido.



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