Eu estive à espera cerca de vinte e cinco minutos. Eu não me contive e olhei em volta e nenhum vestígio de você. Duas mulheres chegam. Esbeltas e de pele morena, com olhares indecifráveis, que se sentam junto à nossa mesa. Eu não pude deixar de reparar naquele lindo colar que uma delas carregava e, também, no belo sorriso que a outra vestia. Nunca havia me sentido tão indiscreto e, ao mesmo tempo, tão solitário por você ter me esquecido naquela mesa num sábado à noite.
Uma delas, Carla; foi o que pude ouvir. Outra, minutos depois, Isabel. Carla e Isabel. Fitei inúmeras vezes, de novo, o relógio. Onde estaria você? Pedi a entrada e comi lentamente. Carla e Isabel comiam foccacia e apreciavam um bom vinho, além de terem iniciado uma interessante conversa.
— A sua escolha foi bem inteligente, Isabel. Adorei o ambiente.
— Pedi que minha secretária reservasse. Ela disse-me que esteve a tarde toda a procurar os melhores restaurantes, pois tinha medo de eu não gostar.
— Espero que você a felicite por isso.
— Claro, minha amiga. Quantas saudades que eu tinha de você... das nossas conversas.
— Verdade, Isabel. Já não era sem tempo! Você anda tão atolada no trabalho!
— Ando tão atolada no trabalho que estou esquecendo de minha vida. Estou estagnada e, pasme, não sei o que fazer!
— Para outro alguém, isso seria uma coisa muito estranha de se ouvir, Isabel. Pois você tem sempre o controlo de tudo.
— Mas não de mim.
— O que está te afligindo, minha querida? Conheço-lhe bem.
— O amor.
— Uau! Ele chegaria cedo ou tarde em sua vida...
— O problema, Carla, é: eu que sou tão segura de mim, independente tenho medo de perder minhas certezas por saber que estou amando.
— De todas as suas relações, Isabel, você nunca se entregou o suficiente e acho que esse momento deve ser agora. Você sabe, você deve.
— Eu queria muito deixar para depois o amor sendo que eu preciso dele agora.
— Não evite o inevitável, não se isole assim. Não finja que as coisas passam ao seu redor como se fosse um carrossel que não vai parar. Concentre-se no seu coração e ouça-o apenas uma vez. Esqueça a razão, alimente sua fase. Aproveite seu momento. Resgate aquela adolescente que você perdeu. Fuja desse cliché que não existe amor sendo que, na verdade, o que não existe é pessoas suficientes para acreditar nele.
— Eu tenho medo que dessa vez eu não consiga alguém que queira ficar.
— Eu realmente acho que quem tem de querer ficar, antes de tudo, é você. Lembre-se que além de uma vida profissional brilhante e todos os prémios que você tem não é tudo porque você é ser humano com emoções e sentimentos e é natural que você queira alguém não apenas para partilhar o que você tem obtido pelo seu sucesso, mas sim para somar todas as qualidades e afinar defeitos. Ouça, Isabel, a gente cresce muito com alguém.
Eu já havia terminado minha entrada, elas estavam à espera do prato principal. A empregada libanesa, muito atenta, reparou que havia um prato a mais à mesa, e talvez ela soubesse que ele poderia ficar assim, vazio, à noite toda e gentilmente perguntou se poderia retirar. Eu disse que sim. Hoje janto comigo. Assim que meu prato principal chegou, Carla e Isabel, olharam de relance para mim e continuaram a conversa.
— Carla, eu acho que nunca amei.
— Existe muitas formas e muitos caminhos de amar. Talvez você ainda simplesmente não achou a tua.
— O que é amor para você?
— Eu nunca irei saber descrever ao certo algo que me possui por inteiro. Algo que arde e fere. Algo que em mim pulsa em sono e acorda em fúria; algo que eu esqueci numa estrada que é cíclica e que não tem fim. Não que eu não goste do amor, eu amo o amor e convido as pessoas que o conheça. Mas, Isabel, quando eu falo de amor, eu não falo apenas de relação; claro que isso é um ótimo caminho... Mas as pessoas se esquecem muito de amar... a si. Você se ama?
— Eu nunca parei para pensar nisso.
— Eu sempre fiz do amor um cálculo errado. Sempre associando aos homens que eu pudesse ter. Mas com o tempo aprendi que posso amar uma folha, um gato, uma casa, um livro que seja. Amar é meter todas as suas certezas num saco e jogar no mar esperando que um dia eles parem à beira-rio, mas que nunca param - e você aprende a reinventar o amor e o amar.
— Isso é tão confuso quando não me entendo.
— Eu acho muito válido você se preocupar tanto com sua vida profissional, a sua estabilidade, os seus sonhos... Mas e você? Os seus outros planos? A Isabel mulher, talvez mãe, a Isabel que viaja sem destino, a Isabel que poderia viver um ano em Londres, a Isabel destemida, sem medo e sem medo de errar? Acho que você tem medo do amor porque sua mente é sempre treinada para não errar... e você tem medo que o amor possa te machucar e não dar certo. Mas o que é certo nessa vida?
— Eu nunca me arrisquei viver de verdade.
— O dia que você aprender que a vida vai tão além de trabalho e dinheiro você entenderá não apenas o motivo do amor, mas a sua função como ser.
— Você sempre fazendo poesia com suas doces palavras.
— Ouça meu conselho, minha amiga: não atrase por medo ou por alguém, arrisque-se viver de acordo as suas vontades e, caso não tenha, procure criá-las. Arrisque-se. Permita-se. Ame-se e deixe-se amar. Não deixe para depois caso a oportunidade seja amar você, ou alguém. Permita-se sentir porque só assim você saberá que de fato você pode amar. Amar alguém é sentir que sua alma encontrou morada, que sua melodia agora faz sentido, que conversar com esse alguém é tão bom... que você poderia apenas conversar fazendo um silêncio tão gritante que só quem ama ouve. Digo mais: deixe-se descobrir o amor e o amor irá descobrir você. Você nunca será inteira de mais para algo que não se mede e não se cabe.
Certamente eu não me caberia nessa conversa, mas as palavras couberam como luva em mim. Acertaram em cheio meu coração, alagaram meus sentimentos e fizeram crer que, além de deveras apreensivo e inseguro, eu poderia ser alguém no amor. Eu saí confiante porque eu confiei profundamente em alguém que não conhecia, mas que disse coisas que conheciam meu ser. Talvez a minha verdade absoluta era mesmo estar naquela noite de sábado sozinho, perto de uma mulher tão insegura no amor, para de fato me reconhecer.



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