É muito fácil olhar para ti e não sentir nada — pois o nada nunca existiu. É fácil tentar focar todos os meus objectivos numa relação que não me edifica, sustenta ou fortalece. O que eu faço aqui, João?
É deveras fácil tentar ser tua princesa, tua esposa perfeita, a tua doméstica pontual. Mas é muito, muito difícil ser tua esposa e o seu amor, João.
É agoniante olhar para ti e apenas sentir amor quando eu quero sentir um ódio mortal, latente. É exaustivo amar-te. Tu me cansas assim como os cavalos da fazenda há alguns quilómetros daqui que vão e vem sob o sol quente e abrasador.
É muito fácil subir no teu pedestal e ficar debaixo de teus pés, sentindo o teu pisar de desprezo e a terrível sensação que tu apenas me suportas e exalta por ser teu prémio, não o teu amor.
João, sinceramente, não sei o que vi em ti.
Além dos seus belos olhos castanhos, eu jurava que atrás deles eu poderia desbravar o mundo apenas por olhá-los. Eu quis fazer morada em seus olhos porque eu vi encantamento e certeza, mas tudo isso foi em vão, João.
O que eu sou para ti?
Eu vejo a Lúcia e o Marcelo e sinto inveja — das fortes, brabas e latentes. Eles são felizes, são fugazes, são honestos um para o outro. Eles são amor dividido ao meio sem parecer metades.
O que eu sou para ti, João?
É muito fácil olhar para ti e não sentir nada. Porque todo o amor que eu construí acerca de nós dois tornou-se num vazio tão latente e pegajoso que posso senti-lo à noite, junto a mim.
Apesar de ser vista sempre como um emblema de prazer, uma fragilidade feminina, uma volatilidade da natureza, eu sou forte o suficiente para reconhecer que o vazio sempre foi meu: eu enchi-me de certezas e cobri por anos essa relação que nos sufoca.
Eu não fui mulher quando eu mais precisei.
Eu não gritei. Eu não chorei. Eu não quis arrancar os cabelos. Eu não bati a porta. Eu não saí correndo. Eu não quis quebrar todos os meus pertences de higiene pessoal, ou rasgar as tuas roupas... Eu apenas aceitei estar numa relação calada, fria e incapaz de reconhecer que és egoísta de mais para não olhar para mim.
Eu sempre achei que tu pudesses mudar. Eu tive para mim que todo o seu machismo pudesse derivar por conta do seu círculo social, por conta do seu emprego ou pelo seu status. Eu fui dando tempo ao tempo. “Ele irá mudar” — era o meu mantra. Tu não mudaste e vi que eu mudei bastante, pois agora eu percebo isso.
Talvez o erro de muitas mulheres seja sujeitaram-se a qualquer amor, paixão e faísca. Por se sentirem demasiadamente frágeis e sozinhas, por se sentirem-se vulneráveis, e precisarem de um homem — seguido de um amor.
A sociedade implementou: casa-te com um homem não com o seu amor. Tua dedicação com ele vale muito.
João, como fui dedicada e como não valho nada. Como fui modesta. Como fui passiva. Como fui letárgica.
Por ser tão difícil ser mulher percebi que é extremamente difícil deixar de ser a tua. Medo. Tu metes-me medo porque eu não saberei enfrentar o mundo sem ti. Eu sei que posso e devo, mas não consigo.
O que faço aqui presa, João?
Devias ao menos libertar-me. Cansei de ser a princesa de um monstro.
Mulheres, aprendi durante toda esse tempo que amar um homem pode ser bem mais difícil do que criar um filho. Se você decidir amar um homem esteja ciente que ele poderá absorvê-la.
Aprendi que amar alguém vai muito além de satisfazer seus desejos. Amar alguém é transcender a alma, é catalogar teus sonhos, é dividir tuas esperanças. Se eu sou feliz? Um pouco. Primeiro porque sei que minha vida é um erro que sei como corrigi-lo. Segundo porque eu sou mulher, mas não aprendi ainda a ser corajosa o suficiente para ser feliz por inteiro.
Um homem que não presta é capaz de destruir a tua coragem, dilacerar tua alma e fazer de ti a sua eterna escrava julgando sempre que és uma princesa.
Homens que não valem nada sempre se acham príncipes, sendo que, na verdade, eles não passam de monstros que nunca deixam as belas, encantadoras e manipuladas mulheres irem-se por não serem capazes de viverem sem escoras.



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