— E quem disse eu que eu dei a volta por cima? Eu fiquei lá baixo, colada, feito pedra. Eu não movi um dedo, eu não desgarrei da aversão e raiva um momento sequer.
— Mas hoje você encara essas situações, várias inclusive, de uma forma tão natural… até parece que você não é uma mulher traída. Permite-me que use essa expressão, é que não sei encontrar outra palavra para o ato macabro que aquele homem fez com você.
— Sabe, Júlio, a gente nunca sabe lidar com o fato de saber que está sendo ou que pode ser trocada, e comigo não foi diferente. Quando eu descobri a primeira traição eu estava cega, louca e perdidamente fora de mim e cheia de amor. A gente não se conforma, não se adapta, se rejeita em saber que o seu corpo, o corpo da pessoa e todo o envolvimento que existia não existe mais somente para dois mas que é partilhado a três. Ah, e a gente é tão egoísta e possessivo no amor que nada e ninguém nos fere mais do que o simples fato da divisão. Amor dividido é amor subtraído.
— Mas, Luísa, você teve a chance de pular fora desde o primeiro dia! Porquê não o fez?
— E sei eu? Você acha mesmo, Júlio, que uma mulher ensandecidamente apaixonada é capaz de voltar atrás e dizer não para o amor que julgava ser da sua vida? Comigo não foi diferente: eu virei a página e aceitei-o de volta com mais de uma mala cheia no peito com o calor, a doçura e alento da outra.
— E você nunca foi questionar a outra? Ou melhor, a primeira de outras…
— As outras sempre foram as outras. Na primeira traição eu senti muita raiva dela, quis bater, quis arranhá-la toda, quis saber todos os motivos do mundo, meu deus, e saber porque mexer em algo que estava tão sólido e contente… mas eu não fui capaz. Nem com ela, nem com as outras. Eu apenas fui capaz de sempre recebê-lo de braços abertos.
— Eu sei que você amou muito ele, mas nada mudou desde a primeira traição que, por você ter aceitado ele de novo, e de novo, e de novo, fizesse ele ter essa liberdade pra isso?
— Exato. Primeiro eu senti muita raiva da outra, somente dela, depois da outra, eu comecei a odiar ele… um ódio de morte, um ódio de amor. O tipo de ódio que faz querer você matar por amor, não por maldade. Um ódio que queima no coração e que acaba sendo apagado nas lágrimas. A verdade é que com todas as outras eu sempre quis colocar fogo nele e apagar com meu pranto até que eu comecei a sentir ódio de mim.
— Como assim, Luísa? De você? A mais inocente disso tudo era você…
— A verdade é que eu deveria ter sentido ódio de mim mesma desde o primeiro dia. Desde que eu encontrei-os naquele bar, noutro bairro, de mãos dadas e copos de cerveja barata, imagina só, na mesa. Ele que comigo era daquele que apenas degustava os bons vinhos, que nunca em hipótese alguma iria estar de mãos dadas num bar na esquina. A verdade, Júlio, é que eu sempre achei que tudo seria muito perfeito e que seguiria um roteiro que estava escrito na minha cabeça; tudo, porém, não continha essa nobre palavra: traição.
— E o que é traição pra você?
— Hoje eu posso afirmar com toda certeza que traição é transladação de amor. É posse contrária, é sentimento mudo, é cama vazia, é dois estranhos que se conhecem por alma, mas que já não se amam com alma. Traição, Júlio, é deitar com ele rezando que ele te ame e acordar imensamente triste sabendo que ele não te amou.
— E o que você fez com todo esse ódio?
— Primeiro eu quis chorá-lo todo. Eu seria incapaz de seguir em frente com um oceano de ódio em mim. Segundo, eu nadei no ódio e descobri que havia uma ilha pequena em mim: uma ilha que me servia, que me suportava e que existia apenas eu. Eu estava à deriva de mim mesma quando eu me encontrei.
— Eu não sou capaz de entender que você em momento algum culpou ele. E pior, você aceitou isso por mais três vezes…
— Júlio, depois da primeira, eu já sabia que não era amor, mas eu tinha certeza que poderia ainda ser amor. Eu era a pessoa mais cega e idiota por amor e amar. Na segunda, eu acreditei que um cristal poderia ainda ser colado e mesmo assim servir para ornamentar uma bela mesa. Na terceira, todos os meus cristais estilhaçados estavam no chão. Na quarta, e última, eu e todos os cristais e espelhos estavam no chão em frangalhos. Então, foi aí que eu me vi de verdade. Eu precisei me quebrar inteira para ver que eu estava em metades — assim como no amor.
— Você se refez de metades?
— Eu me refiz colando cada pedacinho quebrado de mim. Nunca doeu tanto ter que me refazer sabendo que somente eu mesma poderia me consertar. A verdade, Júlio, é que eu nunca esperava ser partida sendo que a partida foi o que me salvou.
— Então depois de ser partida ele partiu?
— Depois de partida eu parti. Eu saí inteira, reequilibrada e com certeza que jamais aceitaria isso outra vez. Eu ergui minha cabeça e segui olhando sempre em frente, deixando para trás tudo que me fez parar e aceitar o que não poderia ter aceitado.
— E ele?
— Jurou amor eterno e mencionou que tudo isso era minha culpa… Ah, para quem trai a culpa é sempre de quem é traído.
— Que cínico.
— Desonesto serve-lhe melhor.
— E hoje você é essa mulher admirável…
— Obrigado pelo elogio. E confirmo, sem vaidade, que sou! A gente só aprende quebrando a cara e nunca pensei que quebrar a cara doesse e curasse tanto ao mesmo tempo. Depois que eu abri a porta que estava entreaberta, eu aprendi que poderia caminhar com minhas próprias pernas e fazer meu caminho sozinha.
— Ele nunca te procurou?
— Não. Pelo simples fato de, antes de eu ter partido, ter dito algumas palavras.
— E o que você disse?
— Exatamente isso:
“Antes de partir, preciso que você saiba que eu sempre aceitei tudo por amor e hoje eu sei que amor é uma palavra que nunca serviu pra nós dois. Antes de partir, eu preciso que você saiba que você sempre tinha sido minhas pernas e, agora, eu sei andar sozinha. Antes de partir, saiba que eu estava completamente partida. Antes de partir, eu digo que estou inteira, intacta e repleta não do amor que eu sentia por você, mas do amor que eu descobri que tenho por mim. Antes de partir, eu vou bater a porta mas não vou passar a chave, faça isso você. Eu sempre fiz tudo sozinha e espero que com isso você consiga lembrar que não existirá maneira de abrir, novamente, a porta de meu coração pelo simples fato de quem está fechando ela é você. Não há janelas, buracos, nem fenda que caiba você mais. Estou partindo e partir é uma palavra que hoje para mim tem um outro significado: refazer. Antes de partir eu quero que você saiba que amor de verdade não limita divisão. Minha calculadora alertou que amores incompletos não são capazes de multiplicar. Não se esqueça que eu nunca fui boa em matemática, mas eu sei que um mais um só pode ser dois e não quatro, ou seis.“



0 comments