Opinião — Dezanove Minutos, de Jodi Picoult

by - 31 agosto


Colocar-se no lugar do outro para quem não possui menor sentido de altruísmo e empatia é motivo de fragilidade: apenas é possível ajudar a si mesmo e os demais não importa. Para uns, a imensidão das palavras cruéis é o fermento dos risos, gargalhadas e fofocas; para outros que sofrem com isso é diferente: o fermento ao invés de explodir implode e instala-se um caos interno. 

Em 'Dezanove Minutos', magnífico livro de Jodi Picoult, somos presenteados com uma magnífica história que nos tira o fôlego, que faz-nos pensar, repensar e tripensar nos motivos em que  uma pessoa é levada a cometer certo ato. Quando tive pela primeira vez esse livro em minhas mãos não esperava tamanha surpresa e gratidão. Este livro evoca lembranças, provoca sentimento e admiração. 

Narrado em terceira pessoa, Jodi apresenta-nos a história de Peter, um adolescente soturno, que não possui amigos e que se interessa por jogos, programação e bandas de rock. O livro começa com um episódio drástico provocado por Peter na escola em que ele estuda: um tiroteio. Vários feridos e dez mortos. Ao virar das páginas, vamos descobrindo e sentindo a necessidade de saber o porquê que levou Peter cometer tal ato.

Desde o seu primeiro dia de aula Peter estava fadado a sofrer agressões e intimidações. E assim, ao longo dos capítulos, presenciamos o sofrer de Peter. Solitário, ele não tinha muitas pessoas para quem recorrer; tinha apenas Josie, sua amiga de infância, que dado as circunstâncias ocorridas afastou-se dele. Para ela, ser amiga de Peter era motivo de vergonha, pois Josie ansiava em ser popular e andar com os populares. O uso de máscaras diárias faz com que adentremos numa sociedade 'baile de máscaras' onde o seu eu verdadeiro não é aceite. Assim, complicado mesmo é saber que é necessário usá-la para fazer parte dela. Por isso, para Josie, abrir mão de sua amizade com Peter era necessário.

O tema Bullying foi inserido no livro de forma muito aprofundada, pesquisada e metódica. A criação das personagens, o enredo e descrições são perfeitas. Os conflitos de cada personagem são apresentados — assim como seus anseios e sentimentos. Cada pessoa é vilã de si mesma. Existe o bem e mal dentro de nós. Com isso, Jodi explicitou-nos a importância de se colocar no lugar do outro e, consequentemente, entendê-lo.

O facto de Peter cometer um crime hediondo não exclui a possibilidade de ele ser uma uma pessoa boa ou de vir a sê-la. O que está nas entrelinhas é o motivo que o levou a cometer o tiroteio. A sua história fora preenchida de agressões, intimidações e más brincadeiras.

Em relação às outras personagens, temos a Alex, mãe de Josie, que é juíza e que se sente culpada por ter 'excluído' sua filha do seu cotidiano; Lewis e Lacy, pais de Peter, que desempenham papel importante sobre os pais de adolescentes como Peter, e que se sentiam culpados pelo o ato de Peter, levando-os a se questionarem onde teriam falhado, e outras personagens que enriquecem a história. Jodi traz-nos personagens que poderiam ser nossos amigos, vizinhos e familiares de tão reais que são. 

É preciso ter coragem para poder viver numa sociedade corrompida por status, egoísmo e amores plastificados. Hoje, existe a necessidade de não apenas adaptar-se à essa sociedade como também a necessidade de abrir mão de seres tu próprio para fazeres parte dela. 

Dezanove Minutos realça a importância de conhecer e respeitar o outro independentemente de seus atos. Julgar os outros sem saber nada a respeito é julgar a si mesmo. Jodi Picoult deixa claro que todos nós podemos ser julgados, independentemente do que fizermos. O pré-conceito descama as pessoas e dissolve-nas em palavras pejorativas, em agressão e ódio. Colocar-se no lugar de outro deve ser não apenas uma tarefa social como uma instrução familiar. Julgar sem conhecer é julgar sem pensar, sem ter informação. Julgar o outro baseado no que pensamos é motivo de 'achismo' próprio e não de verdade. Ler este livro proporcionou-me uma experiência única. Adorei a leitura que concedeu-me sentimentos únicos e diversificados. Após a leitura, fechei o livro e olhei-o por alguns minutos e fiquei a digerir a história. 

A importância de revelar-nos para nós mesmos e não para os outros é que nos torna importantes.

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Sinopse do livro aqui.

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