O mar era plácido, calmo e muito límpido. Ao mergulhar, senti todo o meu corpo estremecer com uma presença solene de uma imensidão compacta naquela água, ali. Meus pés, sobre pedras, fugiram de mim. Percebi, dentro d'água, que dividir um mar e não mergulhar junto é uma falta de cumplicidade, escolha e descompasso.
Meu coração gelou tanto como aquela água; senti um estremecimento por baixo da minha pele, senti um arrepio no profundo do meu ser. Minha respiração, adiada, alertava a minha falta de prática e convidou-me a subir; porém, avistei duas pedras, lindas, díspares das restantes, reluzentes sob meu olhar.
Prendi, de novo e de novo, a minha respiração e pude salvar estas duas pedras da solidão. Ao emergir, o mar estava agitado, movediço e fazia frio. Eu, ali, sentindo-me só, ofereci as duas pedras a um estranho que as recusou.
Saí da água, analisei as pedras de profunda beleza e, seriamente, pensei em devolvê-las a quem lhes é por direito, o mar, mas algo em mim, muito forte, instintivamente, fez-me guardar estas pedras onde aquele estranho estava.
Este estranho, que comigo no mar esteve, fez-me notar que por mais fundo que queiramos ir, nunca será suficiente profundo se depender apenas da gente. O mar, se não me quisesse, teria me engolido, teria feito de mim também pedra, teria feito de mim um peixe que não volta.
O mar não me engoliu, mas eu engoli as pedras dele. Pedras estas que não poderiam ser minhas. Alojadas, com muito cuidado, no compartimento mais pequeno, dentro do saco daquele rapaz, estavam, naquele instante, as pedras que eram do mar, que foram minhas e que já não era do que me uniu.
A união de diversas coisas é feita através de um sim, de uma vontade, de uma escolha incessante de pertencer. O mar macio, naquela tarde, disse sim, para mim, e escolheu-me, sem que eu quisesse e pedisse. O mar, as ondas, o que levou-me ao cerne do meu sentimento, proporcionou o encontro com a razão mais dura que até existira: eu não sei ser pedra.
Por mais que eu tentasse, sem perceber, eu nunca poderia ser pedra. Ser-se isto, duro, é um processo obscuro, excruciante, latente e, quiçá, sufocante, que eu jamais poderia sustentar.
O meu coração, mole, não tem perfil para ser moldado ou sofrer mutação. Ele, assim como o mar, só tem caminho de ida e volta - tendo nele suas incertezas e surpresas.
As duas pedras, desamparadas, talvez também tenham me encontrado: duas almas solitárias e que nunca antes perguntaram se ser-se o que se é seria um motivo de escolha. Eu, assim como elas, não seríamos assim se tivéssemos a oportunidade de escolher. As pedras, por serem elas, talvez nunca teriam ido ali parar.
Ouvi-as, alarmadamente, chamando por ajuda e conforto. Pedras, infelizmente, por não ser pedra como vocês, não poderia abrigá-las.
No fim, guardadas com o rapaz estranho, talvez elas estivessem mais amparadas, seguras e amadas. Amar uma pedra é muito mais fácil que amar alguém de carne e osso. Uma pedra não requer carinho, palavras, um sim, uma atitude - uma pedra é um eterno convite para olhar o que poderia ter sido e não foi.
Talvez eu não volte a reencontrar aquele estranho rapaz, talvez ele suma, talvez ele fique, talvez ele me encontre, talvez eu o encontre, mas nunca saberei, ao certo, em que incerteza eu estarei, ou que ele estará.
Descobri, após a longa viagem que tive, ao voltar para casa, que pedras podem ser sinónimo de certeza e do que não muda.
Parado, junto da janela, com um monte de certezas incertas, tive imensa vontade de não ter dado aquelas pedras. Ao tempo, ali, caiu sobre mim a função de tudo que acontecera.
Aquele rapaz, belo, de olhos leitosos e de uma serenidade no olhar, não saberá o que fazer com as pedras que o mar deu-me a mim.
Tão cego estava, como sempre, que quis logo ofertar o que de mim mais lindo tinha. As pedras não me incitaram a ser duro ou transmutar-me numa, mas, pelo contrário, convidaram-me a guardá-las, num espaço e no coração.
O que de mais lindo em mim aquele estranho teve, foi o que se sucedeu ao longo de muitas idas e vindas em mim - uma excesso de entrega, um loucura de desejo, um pouco de infinidade, um complexo emaranhado de carinho, um punhado de estrelas.
O estranho rapaz, talvez, se não tiver posto as pedras num caminho alheio, agora segura as pedras que ardeu em meu coração. Pedras estas que apedrejaram, depois, meu ser.
Uma das maiores perdas talvez seja não mergulhar, tentar, e emergir do fundo com a certeza que o desconhecido é um lugar palpável e cheio de pedras.
Duas pedras simbolizam a união entre mim e aquele estranho.
No mar do amor eu não sei ser raso: mergulho fundo, encontro pedras e aprendo a ser.
Aprendi que ser-se pedra é deixar de lado o que não nos quer e aproximar de nós o que mais de nós temos.
Duas pedras.

















